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Férias na casa do Vovô, o começo de uma tradição.

Eu não gosto de Brasília. Acho interessante a arquitetura, acho o céu lindo, mas acho sem graça, sem charme e sem quase nada que faça eu querer voltar. Quase porque ali fica a minha família e para encontrar com eles, é claro, voltei à cidade muitas e muitas vezes, mesmo que secretamente eu preferisse que eles morassem em Curitiba ou, quem sabe, Trancoso. Mas eis que neste Julho, mês de férias, recebi do meu pai um convite para levar os pimpolhos para visitá-lo. Meu pai tem uma chácara, já em Goiás mas pertinho de Brasília, e a idéia de uma casa com gramado, piscina e dois avós saudosos para me ajudar a entreter os filhotes me pareceu bem interessante. Encarei pela primeira vez uma viagem de avião sozinha com minhas duas crias e fui gratamente surpreendida por um excelente comportamento, incluindo um segurando a mão do outro enquanto eu fazia o processo raio X e sonecas durante quase todo o vôo, mesmo quando a Dona Gol me colocou na última fileira, aquela que o banco não deita e que quando o banco da frente deita, a mesinha encosta na sua barriga. (Nota mental para nunca mais esquecer de marcar o assento pela internet). Mas mesmo que a viagem tivesse sido muito mais estressante teria valido à pena.

Comer jabuticaba direto do pé, plantar e regar verduras na horta, colher flores do cerrado, brincar na areia, fazer bichinhos de fruta e palito, andar de carrinho de mão, se apaixonar pela centopéia de barro do jardim, assar salsichão na fogueira cantando música de São João foram alguns dos pontos altos da viagem. Sem falar na família reunida, enchendo de carinhos, beijos e presentes. Também teve tarde na casa da Bisa, com direito a banho que inunda banheiro, baú cheio de chocolates e apostar corrida no longo corredor. Teve lanche na casa da Tivó, com direito ao melhor pão de queijo caseiro que já comi e a presença ilustre dos três pequenos cachorros: Ozzy, Pitty e Zizi, sendo Zizi uma filhote que ainda mama na mãe, para a surpresa da minha mais velha, que descobriu que os cães também têm pai e mãe!

Mas para os que não têm a sorte de ter a minha família, Brasília também ofereceu alguns bons programas para crianças. O Jardim Botânico agradou, mesmo com a manutenção meio capenga e a falta de pessoal que fez com que o trenzinho estivesse parado. O tempo passou voando no parquinho (nada demais, mas parquinho é sempre parquinho), no orquidário, na biblioteca com livros infantis  e nas pontes do bonito laguinho.

No Jardim Zoológico eu não fui, mas as crianças adoraram ver os animais, com menção honrosa para o enorme hipopótamo e seus filhotes (na verdade as pacas que ficam em volta) e para as lixeiras e orelhões em formas de bichos. Vovô e vovó emprestada advertem, as grades são grandes o suficiente para as crianças passarem (vejam na foto), o que faz com que o passeio seja um pouco estressante e as fotos um tanto quanto escassas.

E por fim, o Centro Cultural Banco do Brasil, um espaço bem interessante às margens do Paranoá, com cinema, teatro, salas de exposições e dois restaurantes (um quilo e um bistrôzinho da livraria). Almoçamos no segundo, numa mesa mais perto do jardim, que dá para deixar as crianças brincando enquanto os adultos comem (ou tomam um café) tranquilos. O parquinho futurista também fez sucesso, assim como a peça para bebês (recomendada de 0 a 3 anos) que fez certos olhinhos brilharem e manteve até um cansado menino de um ano bem acordado.

Gostou?, perguntei. Adorei!, respondeu.

Eu também. Adorei tudo. Tanto que, quem diria, 25 anos depois de me mudar de lá, saí de Brasília querendo voltar logo.

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Para os pequenos viajantes

Viajar com crianças não é fácil. Mas também não precisa ser impossível. Acho que o primeiro passo para uma experiência agradável para todos é respeitar os pequenos como companheiros de aventuras e procurar atracões que os agradem, estimulem e façam com que gostem de cada viagem como você. Afinal, se eles têm que apreciar uma obra de arte num museu, se precisam se comportar enquanto você desbrava uma lojinha, nada mais justo que você tenha que passar umas horinhas dando tchauzinho para os pinguins ou brincando na piscina de bolas.

Aqui ficam algumas dicas para entreter os pequenos em algumas cidades da Europa.

Amsterdam:

Kinderkookkafe: um café inteiramente dedicado às crianças, onde elas mesmas terminam de preparar os pratos (podem abrir a massa da pizza e colocar os recheios ou decorar cupcakes, por exemplo). Não se engane, não é programa de adulto com coisas para distrair as crianças. As mesas são baixas, os brinquedos ficam espalhados pelo chão e a música é infantil. Na verdade, o clima é de casa caótica de pais de uns 5 filhos. Ou seja, as crianças realmente ficam à vontade. Fica numa entrada lateral (e mais distante do centro) do gostoso Vondelpark, um outro excelente destino para os pequenos, com muito espaço para eles correrem e brincarem.

Preparar uma pizza...

...é fácil...

...no Kinderkookkafe.

Tun Fun: Se a chuva em Amsterdam pode frustrar até os mais grandinhos, imagina os pequenos. Mas este parque subterrâneo pode salvar o dia. Com áreas dedicadas a crianças de 1 a 12 anos, a diversão é garantida em escorregas, piscinas de bolas, pistas de boliche e divertidos carrinhos que se parecem aos que, na minha época, chamávamos de carrinhos de roliman.

No Tun Fun...

...a chuva não estraga a brincadeira.

Nemo: Eu adoro o slogan desse museu – proibido não tocar. Um museu de ciências dedicado às crianças, que estimula a interação, dentro de um impressionante edifício, inspirado em um navio de carga. Perto do Natal, Papai Noel costuma aterrizar no terraço.

Lisboa

Oceanário: programão com P maiúsculo para crianças que curtem bichinhos. O aquário principal é hipnotizante e a área dos pinguins uma gracinha. Aos sábados de manhã, acontecem concertos para bebês de até 3 anos. Fica na moderna região conhecida como Expo, que além do Oceanário, tem o Pavilhão do Conhecimento, um museu de ciências que costuma agradar os pequenos um pouco maiores. Em dias de sol, toda a Expo pode fazer a festa das crianças, com muito espaço para correr e fontes divertidas.

Zoo de Lisboa – O zoo de Lisboa ainda não é tão legal quanto ele quer ser, mas é muito melhor do que muito zoológico por aí. Entre as atrações, a preferida é o show dos golfinhos. Entre as curiosidades, um cemitário de cães e outros animais de estimação.

– Praias – Se o seu filho gosta de mar e areia e estivermos no verão, os arredores de Lisboa oferecem algumas ótimas possibilidades. As mais próximas são as chamadas Praias da Linha, que você pode chegar no Comboio (trem) que liga Lisboa a Cascais. Muitos lisboetas torcem o nariz para estas praias, mas pelo menos um passeio pelo Paredão (como eles chamam o calçadão que começa em Estoril) vale a pena. De carro, você pode chegar a praias mais bonitas e interessantes. Para as crianças, não consigo pensar numa mais divertida do que Tróia. É preciso pegar uma balsa para chegar lá e, no caminho, muitas vezes, somos presenteados pela companhia dos golfinhos. Já deu até para ver o sorriso no rosto do seu filho, né?

Madrid

Retiro: O parque mais famoso da cidade é um destes passeios que agrada greguinhos e troianinhos. No El Estanque, é possível alugar um barco a remo para dar uma volta. Em todo o parque você vai encontrar parquinhos tradicionais (balanço, escorrega…), sem falar nos teatrinhos de marionete, nos patinhos e cisnes que povoam os muitos laguinhos do parque, no romântico Palácio de Cristal. Prefira os fins de semana, quando as crianças locais não perdem a oportunidade de ir brincar ao ar livre.

Baby Deli: “Bom para os seus filhos, bom para o mundo”. É assim que se vende essa delicatessen no coração de Salamanca, o bairro mais chique da cidade. E esta é a proposta: produtos ecologicamente corretos estão a venda, desde brinquedinhos de madeira a fraldas biodegradáveis e alimentos orgânicos. Alguns detalhes, como os carrinhos de compras do tamanho certo para as crianças, dão mais charme para o lugar.  Os adultos podem tomar um gostoso café, acompanhado de bolinhos deliciosos, enquanto as crianças brincam. Um pequeno terraço tem uma oca indígena. O espaço também oferece cursos e outras atividades para crianças. Detalhe: Carolina Herrera é uma das proprietárias.

Faunia – Lá vamos nós ver bichinhos de novo. Fazer o que? As crianças adoram! E este parque temático de animais oferece muitas oportunidades de integração. Não espere ver leões, elefantes ou girafas. Aqui seus filhos vão dar comida para as cabras na fazendinha, ver araras voando livres e macaquinhos pulando de galho em galho em meio a uma tempestade, numa floresta tropical, tirar foto beijando uma simpática foca, ver um pintinho saindo do ovo ou um bebê canguru colocando o rostinho para fora da bolsa da mamãe. Ah, para fãs do Rei Leão, aqui a criançada vai poder conhecer pessoalmente uma suricata (o Timão, companheiro inseparável do Pumba).

Dizer olá para o canguru...

...alimentar a cabra...

... e ver de perto a bicharada no Faunia.

Paris:

Le Jardim d’Acclimatation – Não faltam lindos parques em Paris para as crianças correrem e brincarem ou para um delicioso piquenique depois de umas comprinhas numa boulangerie. Mas este, em especial, dentro do Bois de Bologne, oferece muito mais que área verde e espaço: brinquedos, animais de verdade, trenzinho, shows de rua… não faltam opções para distrair a pequenada. Tudo mantendo o charme de 1860, quando foi construído.

Um passeio de canoa indígena.

Disney World Paris: Dispensa comentários, né? Essa filial do parque infantil mais famoso do mundo fica a menos de 1 hora de transporte público do centro de Paris e garante o sorriso no rosto da garotada pelo resto da viagem.

Essas são apenas algumas sugestões. Com um pouco de pesquisa, dá para descolar muitos lugares divertidos para nossos filhotes aproveitarem as férias e se transformarem em agradáveis companheiros de viagem. Se você parar para pensar, crianças são fáceis de agradar. Um sorvete, um novo brinquedo, um espaço para eles gastarem as energias podem mudar o humor dos pequenos e o clima de toda uma viagem.

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Saudades da Borapirá

Um pedido de ajuda ao guru e autor do livro 100 Praias que Valem a Viagem, Riq Freire, me levou até Tatuamunha. Eu queria uma semana pé na areia e consegui muito mais do que isso. Consegui descobrir um destes lugares que se eu pudesse voltava todo ano. Na mesma época. Com as mesmas pessoas. Para fazer as mesmas coisas.

Tatuamunha é uma pequena vila, perto da mais famosa Praia do Toque, em Alagoas, mas não muito longe da fronteira com Pernambuco. Ali ficam duas pousadas: a Beijupirá, pousadinha de charme que não aceita crianças e que faz sucesso entre casais em lua de mel; e a Borapirá, dos mesmos donos, que  foi criada a pedidos destes casais em lua de mel que um dia procriam e constroem família, mas continuam merecendo um lugar ao sol e uma boa caipirinha de caju.

Sol se pondo entre os coqueiros.

O sol se pondo entre os coqueiros,...

A lua cheia

...a lua cheia...

... e o sol nascendo.

... e o sol nascendo.

A idéia inicial era irmos eu, meu marido e minha filha, mas se juntaram a nós mais dois casais, com dois filhos cada. Chegamos numa segunda-feira e a pousada, a praia e a atenção carinhosa do Dido, do Rodrigo e do Antônio eram só para gente.  Faço questão de chamá-los pelo nome porque era assim que nos chamavam desde quando chegamos.

“Bom dia, Aline. A Antônia vai querer frutas?” e apareciam na mesa do café da manhã o prato de frutas variadas,  a tapioca quentinha, o pão de queijo, as panquequinhas e as surpresas feitas a cada dia. As crianças tinham pratos especiais, com aquelas fotos de cachorro em grande angular. Minha filha ria para o cãozinho divertido enquanto comia melancia e eu pedia para trazerem mais um pedaço de bolo de maracujá. Não é assim que deveriam começar todos os dias?

O simpático (e espaçoso) chalé.

O simpático (e espaçoso) chalé.

Dali, íamos para a praia. Antes de mais nada deixa eu explicar que são duas praias. A praia da maré baixa, com água transparente pelo tornozelo, por onde até uma criança de um ano pode andar (ou engatinhar) por quilômetros sem a menor preocupação e onde adultos podem ficam sentados suspirando para os coqueiros que se enfileiram na praia. E a praia da maré alta, de água escura por causa das algas, que roçam na sua perna quando você vai mergulhar.

A maré baixinha.

A maré baixinha.

Caminhando pelo mar.

As crianças caminham pelo mar...

...e pela areia.

...que tem horas que é quase só areia.

A água rasinha, mesmo longe da areia.

A água rasinha, mesmo longe da praia.

Eu já disse que a água fica rasinha?

Eu já disse que a água fica rasinha, rasinha?

Devo confessar que a praia da maré alta me empurrava para a piscina, onde eu pedia uma caipirinha e uma porção de pataniscas de bacalhau crocantes ou macaxeira frita.

As bóias (nossas e da pousada) na piscina.

As bóias (nossas e da pousada) na piscina.

Era aí que aparecia um bezerrinho ou cabritinho pastando para alegria das crianças. Tinha também um pônei em que elas podiam andar e uma arara que se achegava sem cerimônia e curtia com a gente o solzinho da tarde. Com disposição para andar um pouquinho, dava para ir até o centro de preservação do peixe-boi para vê-los se alimentarem daquela mesma alga que escurece a água do mar quando a maré sobe.

O passeio de pônei.

O passeio de pônei.

A visita ao peixe-boi.

A visita ao peixe-boi.

Tudo isso dá um soninho...

Tudo isso dá um soninho...

A atenção aos pequenos não pára por aí: a Borapirá tem um cantinho com brinquedos, incluindo velocípedes que fizeram muito sucesso, e um cardápio infantil preparado com muito carinho, que junto com a fome que a praia dá, fez até criança que é chata para comer devorar o prato.

A comida dos adultos também não fica para trás: desde combinações mais ousadas como camarão com roquefort e arroz de goiaba e bacon (um pouco enjoativo para o meu gosto pessoal, mas ainda assim saboroso), até pratos caseiros como sopinhas e bife acebolado com arroz e feijão, comemos muito bem todos os dias. Achamos um pouco caro, é verdade, para os padrões nordeste. Mas é de se esperar já que perto da pousada não existe nenhuma opção. Mas quer saber? Depois de voltar para a civilização e pagar a mesma coisa por uma comidinha bem mais ou menos, sem o visual ou o atendimento da Borapirá, achei o preço mais do que justo.

Mas e se bater o cansaço da boa vida da pousada e quiser variar? Fácil. O Rodrigo consegue o carro do pai para você alugar (nós fomos até a Barraca do Tibiro, comer deliciosos lagostins na manteiga, mas outras opções não faltam), o Antônio manda vir umas bicicletas ou qualquer um deles chama uma jangada para te levar para as piscinas naturais mais distantes.

A barraca do Tibiro...

A barraca do Tibiro...

...em outra praia, não muito longe da pousada (aqui já com a maré cheia).

...em outra praia, não muito longe da pousada (aqui já com a maré cheia).

Ou então, você deita na rede e pede mais uma, que a vontade de fazer qualquer coisa passa.

Mas nem tudo foram flores na Borapirá. Demorou uns 3 dias até que a água quente funcionasse bem e para todos. No meio de tantos coqueiros, ficamos dois dias sem água de côco e… Bom, foi isso. A verdade é que os proprietários compraram a pousada e ainda estão investindo para melhorar cada detalhe. Mas estão num ótimo caminho. A pousada já é charmosa e aconchegante, perfeita para famílias que sentem arrepios ao pensar em resorts cheios de turistas. As cadeiras de alimentação infantil já foram encomendadas e está sendo construído um cantinho maior para os pequenos, onde ficará um monitor para distraí-los e dar uma folguinha para os pais.

Quem sabe ano que vem eu não volto e conto outra vez como andam as coisas por lá?

Obs.: O transfer de todos os 3 casais foi feito pela empresa Costa Azul. Todos deram certo, menos o nosso da volta. Nossa sorte foi que tínhamos tempo, mas ainda assim, só pegamos o vôo para casa porque os proprietários (um português e uma brasileira muito simpáticos) mandaram chamar o Ricardo, que em 15 minutos estava lá para nos levar. Recomendo entrar em contato com ele para transfers ou passeios. É uma pena que, pelo menos por enquanto, ele só possa oferecer um carro.

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Hey, Gwyneth? How are the kids?

Descobri hoje um blog da Gwyneth Patrol onde ela dá dicas de viagem, prepara receitas e divide angústias de guarda-roupa (sim, Gwyneth também tem dias em que não sabe o que vestir!). Todos os posts que li têm este tom de gente-como-a-gente, embora alguns sejam mais para gente-como-a-gente-com-muito-mais-dinheiro-e-amigos-bem-interessantes. Adorei um em que ela pede para uns amigos darem dicas de bons filmes para pegar em DVD. Entre os amigos, um tal de Steven Spielbierg e outros colegas de profisão. Aliás Jon Favreau (que dirigiu Iron Man, Wimbledon) indica a caixa do reality show Top Chef (que eu adoro!).

Mas resolvi dividir com vocês um outro post sobre um assunto que agora muito me interessa: bons restaurantes para ir com crianças. Tem endereços em NY, LA, Chicago e Londres. Entre eles está o Tom’s Kitchen, que eu já tinha anotado para ir na minha próxima viagem a Londres.

Eu já assinei a newsletter semanal. Assim, se eu esbarrar com ela por aí, vou me sentir com intimidade suficiente para perguntar pelas crianças.

Detalhe: o blog tem tradução em espanhol.


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San Sebastian – praia, charme e ótima comida

Ainda estamos na estrada e o cenário começa a mudar. Basta entrar no País Basco para as montanhas verdes substituírem os tons de marrom da paisagem. O idioma complicado vai tomando conta das placas e o calor não é mais tão seco, do tipo que faz a pele fritar. Alguns quilómetros mais tarde, aparece pela primeira vez o mar. Para quem não vê o oceano há meses, avistar o horizonte azul lá atrás das montanhas foi como cruzar definitivamente a fronteira para um lugar chamado férias.

O complicado idioma basco, na estrada.

O complicado idioma basco, na estrada.

Tamanha era a ansiedade para colocar os pés na areia, que deixamos o check-in para depois e fomos direto para a praia. La Zurriola, a praia dos surfistas de San Sebastian, cruzou primeiro o nosso caminho e foi ali mesmo que estacionamos. Apresentamos a praia para a nossa filha. Barraca, baldinhos e pequenos passinhos na areia.

Café no calçadão da Praia de Zurriola

Café no calçadão da Praia de Zurriola

A primeira vez da nossa bebê na areia só não foi mais gostosa do que a primeira vez da nossa bebê no mar. Essa estréia ficaria para o dia seguinte, nas águas calminhas (e bem mais quentinhas) da Praia da Concha.

Com a maré baixa e para o outro lado do único estacionamento público da praia, não precisamos nem brigar por um bom lote de areia na principal praia da cidade, considerada a praia urbana mais bonita da Espanha.

Praia da Concha

Praia da Concha

Bonitos edifícios da orla

Bonitos edifícios da orla

O calçadão

O calçadão

Levo a minha filha para mais um mergulho e olhando para os dois morros verdinhos que guardam o mar, os bonitos edifícios da orla e o charmoso calçadão, sou obrigada a concordar.

Brincando pela primeira vez no mar.

Brincando pela primeira vez no mar.

Dica: A biblioteca atrás da catedral oferece wi-fi gratuito. Dá para acessar a internet num edifício moderno com um nostálgico perfume de livros antigos, na companhia de jovens estudantes e senhores de idade que aproveitam o fresquinho do ar-condicionado para ler os jornais do dia.

A catedral, no fim das ruazinha de comércio.

A catedral, no fim da ruazinha de comércio.

Onde ficamos:

Nossa pousadinha.

Nossa pousadinha.

Belazarte é uma pousadinha de turismo rural há 20 minutos de San Sebastian. Para chegar lá, passa-se por duas horrorosas indústrias e uma estradinha gostosa, beirando um rio e muito verde. As enormes hortênsias logo na entrada, a vista da montanha da janela do quarto, a piscina no jardim e o café da manhã simples e gostoso, com torradas quentinhas feitas com boa manteiga todos os dias de manhã são os pontos altos. O tapete cinza do quarto, a cortina do chuveiro e as torneiras cor de laranja que estavam super na moda nos anos 70 poderiam ser trocados. Mas aí, provavelmente, a diária seria bem mais dos que os €61 cobrados.

A vista do quarto

A vista do quarto

Onde comemos:

Para quem não sabe, pintxos são pestiscos muito tradicionais do País Basco, normalmente servidos espetados por um palitinho (pinchar quer dizer espetar) e variam de clásscas fatias de pão com um bom pedaço de jamon a mini-pratinhos  super elaborados.

Uma tradicional barra de pintxos

Uma tradicional barra de pintxos.

Um copo de sidra para acompanhar o pratinho de pintxos

Um copo de sidra para acompanhar o pratinho de pintxos, que você escolhe, pega e mostra para que anotem o que você consumiu.

Percorremos as ruas da Parte Vieja, contentes com a agradável surpresa de que os bares de pintxos eram na maioria compatíveis com o carrinho de bebê, sem muita fumaça de cigarro (não sei se pelos locais serem bem mais arejados ou se por abrigarem muito menos fumantes do que os terríveis bares de Madrid).

Entre os meu preferidos estiveram o maior bolinho de bacalhau que eu já comi (um cubo e não uma esfera como estamos acostumados) do Nagusia Lau, o pimento de piquillo recheado e empanado do Bernardo Etxea, o bacalhau com couve-flor e migas de curry e o risotinho de ameijôas do badalado A Fuego Negro e os incríveis Carrillera de ternera e Costillas de cerdo ibérico do La Cuchara de San Telmo, que derretiam na boca.

O descolado a Fuego Negro...

O descolado A Fuego Negro...

... e seus pintxos modernos...

... e seus pintxos modernos.

Um divertido mural do La Cuchara de San Telmo

Um divertido mural do La Cuchara de San Telmo

Quando deu vontade de sentar e comer um tradicional prato de comida, escolhemos uma mesinha com vista para o Porto no La Rampa. Salada, ameijôas e um delicioso bacalhau na brasa. Recomendo.

Nota: Se estiver indo a San Sebastian e estiver podendo, não deixe de experimentar um dos estrelados restaurantes da região (Arzak, Martin Berasategui…). Dizem que esta é a maior concentração de chefs “wow” por metro quadrado.

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Tudo novo de novo. Oba!

“O melhor de viajar com crianças é a possibilidade de (vi)ver tudo como se fosse a primeira vez, principalmente aquelas coisas sensacionais, mas com as quais já nos habituamos: o mar, a girafa, o avião, a nuvem.

Vocês se lembram da primeira vez em que foram à praia? Eu, sim. Foi há seis meses, com o meu bebê. A areia? Voa de nossas mãos. O vento despenteia os nossos cabelos e é difícil ficar de olhos abertos. E o mar? É salgado, balança e faz a gente rir.

Estou simplesmente fascinada por esse mundo de novas viagens a velhos lugares!”

Uma bela definição de uma belíssima fase, escrita por uma mãe chamada Sílvia Soares e publicado no blog Viaje na Viagem, do Ricardo Freire.

Adorei! Até porque semana que vem eu também vou à praia pela primeira vez.

Obrigada, Sílvia, por deixar eu colocar essa definição perfeita aqui.

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Apertem os cintos…

Se a maternidade ou a paternidade estão longe dos seus planos e se você não quer nem ouvir falar em cáca de bebê, pule este post.

Agora se você tem ou quer ter filhos e possui algum interesse nas dificuldades de viajar de avião com um bebê, continue.

Cena 1: Lá vou eu, feliz da vida, viajar de avião sozinha com a minha pequena. Começa bem só de não ter que ficar na fila para o raio-X (que está enorme). Mas eis que tenho que passar o carrinho pelo raio-X das malas. Então pego a bebê no colo (por estranho que pareça, a dona polícia não se comove com o fato dela estar dormindo) e com a outra mão tento fechar o carrinho. Impossível. Percebendo a minha enrolação, um sujeito de terno e gravata se oferece para ajudar. É claro que ele queria ajudar a fechar o carrinho, mas desculpa. Qualquer mãe sabe que fechar carrinho de bebê exige um preparo técnico que não se aprende em MBA. Então antes que ele pensasse duas vezes, taco minha filhota no colo dele, fecho o carrinho, coloco na esteira, passo pelo raio-X, abro o carrinho, volto, pego a filhota, agradeço, boto no carrinho e pronto, certo?

Não.

Eu estou de botas. Volto outra vez, tiro as botas, canto “O Sapo Não Lava o Pé” de longe para ver se ela pára de chorar, passo pelo raio-X, calço as botas e – ufa! – primeira etapa cumprida.

Cena 2: Sento na cadeira do avião, aceito os olhares desconfiados dos passageiros ao redor temendo a quantidade de decibéis que um choro de bebê pode alcançar, instalo o cinto de segurança para o bebê acoplado ao meu cinto de segurança, relaxo e assim que o avião começa a se mexer, ouço aquele pum estrondoso que indica cocô dos grandes, seguido por uma sensação húmida de cáca de bebê escapando da fralda. Espero o avião decolar e os indicadores do cinto se apagarem e me dirijo ao banheiro.

Abro o trocador e me movo com dificuldades no espaço que sobra. Apóio a mochila na pia e, sem perceber, molho a mochila inteira na torneira, que justo daquela aeronave, é do tipo automática que abre com sensor de movimento. Tiro a roupa da bebê com cuidado para não sujá-la ainda mais e sinto o avião balançando. Acende a luzinha de volte correndo para o seu acento. Pondero a possibilidade de voltar com a pequena pelada e toda cagada em prol da nossa segurança. Decido que é melhor não. Rezo enquanto troco a fralda batendo todos os recordes de velocidade. Segunda etapa cumprida.

Cena 3: O avião começa a descer. Minha filhota, que não é de chorar sem motivo, começa a berrar. Deve ser ouvido, já tinha lido sobre isso. Preciso dar de mamar, mas meu peito já está vazio da decolagem. Descubro que não consigo preparar a mamadeira sozinha ao mesmo tempo que seguro um bebê se esbravejando no meu colo. Não na classe econômica, pelo menos.

Me ajoelho no chão, colocando ela sentada na cadeira. Canto a versão remix de “O Sapo Não Lava o Pé” enquanto tento tirar da bolsa a mamadeira com a água e o potinho com o pó de leite. Olho a minha volta e descubro dois tipos de pessoas: as que sentem pena de mim por ter uma filha como ela e as que sentem pena dela por ter uma mãe como eu. Eventualmente o avião pousa. Terceira etapa cumprida.

Cena 4: Vou para a esteira buscar as malas e o carrinho (que é despachado para o porão desde a porta da aeronave). Espero. Espero. Chegam todas as malas, de todo mundo, menos o meu carrinho. Esbravejo em como as viagens aéreas são o único serviço que o cliente paga caro para ser mal-tratado. Faço a reclamação oficial e vou para casa. Eles têm 21 dias para encontrar uma bagagem antes dela ser considerada “de fato” perdida.

Espero cinco dias para ver se tenho notícias do carrinho.  Já sem força nos braços, desisto e compro um novo. No dia seguinte, recebo uma ligação da companhia dizendo que finalmente o carrinho havia sido encontrado.

Eu juro, todos os acontecimentos são reais.

Para a minha sanidade mental, pelo menos não aconteceram no mesmo vôo.

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