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Japão – Capítulo 4 – Onde ficar

Quando estava indo para o Japão, um amigo me sugeriu que me hospedasse em Ryokans. E eu tive a feliz idéia de seguir o seu conselho. A hospedagem acabou sendo uma das partes mais gostosas e interessantes da viagem, onde pude conhecer mais de perto pessoas especiais e costumes interessantes.

Mas o que são Ryokans? São hotéis tradicionais japoneses. Os sapatos que ficam alinhados na porta, os chãos de tatame, as yukatas (robes tradicionais, mais leves que os quimonos), o chá na mesinha baixa, os futons fofinhos apoiados diretamente no chão, os banhos quentes, muitas vezes com lindas vistas… Num Ryokan todo o seu imaginário sobre os costumes do país estão lá e me parece um desperdício atravessar o mundo para conhecer o Japão e ficar hospedado num hotel que poderia estar em qualquer outro lugar do mundo.

Existem Ryokans de  luxo e super exclusivos e Ryokans com preço, jeito e clima de albergue. Enfim, budget e exigência não são desculpas para perder a oportunidade.

O site www.japaneseguesthouses.com pode te ajudar a escolher um Ryokan e os guias do Japão costumam indicar alguns em várias faixas de preço. Eu fiz todas as reservas diretamente, algumas vezes por e-mail e outras por fax.

Estes foram os Ryokans que fizeram parte da minha viagem:

Em Tóquio:

Ryokan Shigetsu, no bairro de Asakusa. Tudo neste Ryokan foi perfeito. O preço é super justo. A localização é excelente, ao lado da Nakamise Dori, a feirinha mais legal da cidade. Reservei um quarto com banheiro e sem chuveiro, que não fez a menor falta. O banho tradicional comum é pequeno, mas super limpo, além de ser uma experiência deliciosa. Primeiro você senta num banquinho e toma o banho propriamente dito com um chuveirinho baixo e uma espécie de baldinho. Depois, mergulha numa banheira quentinha, com vista para a Pagoda do templo de Asakusa. Perfeito para relaxar depois de um dia de turismo intenso. Dica: se enxague bem, pois é muita falta de educação entrar na banheira com restos de sabão.

Annex Katsutaro Ryokan, no bairro menos turístico de Taito-Ku. Este hotel foi o ponto final da nossa viagem, na volta para Tóquio. O preço é ótimo e o hotel super direitinho, embora falte um pouco de charme. O mais legal de ficar aqui foi justamente o que poderia ser o seu ponto fraco: a localização. Conheci um bairro mais normal da cidade, que não iria nunca não fosse por estar hospedada ali. Mas as conexões de transporte são ótimas.

Em Takayama:

– Nagase Ryokan: Sem sombra de dúvidas, o melhor Ryokan em que me hospedei. E também o mais caro. Demoramos a encontrar a entrada porque não havia nenhuma placa que não fosse em japonês. Só tive certeza de que era ali porque conferi o número de telefone, os únicos caracteres que podia compreender. O quarto era lindo e super espaçoso. E o jantar degustação, que comi vestida com a minha Yukata, depois de um banho tradicional com vista para um lindo jardim japonês, servido no quarto pela senhora mais simpática que já conheci, foi um dos melhores da minha vida.

Em Kyoto:

Rakucho Ryokan: Em Kyoto ficam os melhores e mais caros Ryokans. Infelizmente, não pude me hospedar em nenhum deles. Optei por um albergue/ryokan, sem banheiro nem chuveiro no quarto. O banho comum não era dos tradicionais, embora tivesse uma pequena banheirinha para banhos de imersão. O quarto era confortável. Nem sempre havia gente na recepção, mas as dicas que nos deram foram valiosas.  Fica um pouco longe do centro, mas é bem conectado de ônibus, o transporte público oficial da cidade e fácil de usar (vale a pena comprar um passe para o número de dias que for ficar).

Em Mont Koya:

Henjoso-In: Em Mont Koya, você não fica hospedado em Ryokans, mas em templos. A estrutura é a mesma , com a diferença de que é você mesmo quem coloca o seu futom no chão na hora de dormir (mas eles explicam direitinho como fazer). Os banhos e banheiros são compartilhados (o banho é bonito e com vista). A estadia no templo inclui café da manhã e jantar vegetarianos e a oportunidade de participar do ritual espiritual, que começa às 6 da manhã. Vale a pena acordar cedo.  Reservei por fax, através do centro turístico (http://www.shukubo.jp/eng/).

Em Hakone:

Fuji Hakone Guesthouse: Este é mais um Ryokan estilo albergue. Hakone é um destino de Hot Springs (águas sulfurosas) muito procurado pelos turistas japoneses, por isso uma hospedagem mais ‘tchan’ pode sair bem cara. Esse foi com certeza o piorzinho de todos em que fiquei hospedada, com a vantagem de oferecer a sua própria piscinazinha de águas quentinhas (e fedidas por conta do ácido sulfúrico) exterior. Você reserva uma hora e tem a piscininha só para você. A experiência foi divertida.

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Japão – Capítulo 3 – Os bairros de Tóquio

Saí da estação mais movimentada do Japão, Shinjuko, por onde passam por dia cerca de 2 milhões de pessoas, seguindo as placas para o lado Oeste. Este é o lado sério do bairro, uma colecção de arranha-céus, a maioria hotéis ou edifícios administrativos. É aqui que fica o Park Hyatt, o hotel do filme Lost in Translation, e o Edifício do Governo Metropolitano de Tóquio, a melhor vista gratuita da cidade – e o nosso destino.

As gigantescas torres do

As gigantescas torres do Edifício do Governo Metropolitano de Tóquio...

...e a incrível vista lá de cima.

...e a incrível vista lá de cima.

São duas torres, a norte e a sul, e pode-se subir qualquer uma das duas sem pagar nada. Pego o elevador e dois ouvidos entupidos depois estou lá em cima. Dizem que nos dias claros é possível ver o monte Fuji. Não é o caso. Eu ando de janelão em janelão, embasbacada por aquele oceano de telhados. Sim, eu já sabia que Tóquio era enorme. Eu já tinha lido que 1/3 do Japão vive na cidade. Mas só então eu percebi que Tóquio é uma cidade tão grande, que as atracões turísticas não são praças, monumentos, nem museus. São bairros inteiros.

Shinjuko – Vale a pena ir até o lado Oeste para ver a vista, mas o melhor deste bairro é o lado leste, uma confusão de gente, telões e neons que resultam numa overdose de informação visual. É difícil entender onde começa e termina Kabuchiko, zona em que restaurantes turísticos convivem com puteiros e bares de strip em plena harmonia. Mas é fácil identificar os últimos, se não pelas fotos das mulheres, pelo desenho dos braços em cruz indicando que o lugar é proibido para menores de 18 anos. Também é fácil encontrar os enormes edifícios de karaoke. E nestes vale a pena entrar para conhecer. Os muitos andares com salas privadas para cantar à vontade são um “must” no Japão. Como sempre, não é fácil se entender com o idioma, mas existem menus das músicas em inglês, o que simplifica bastante. E uma hora voa quando se está cantando suas músicas favoritas, com toda a privacidade e sem nenhum motivo para ter vergonha.

Um dos muitos prédios de karaokê.

Um dos muitos prédios de karaokê, em Shinjuko.

The Police em inglês, com tradução em japonês.

The Police em inglês, com tradução em japonês.

Shibuya – Qualquer simpatizante de animais de estimação e bichinhos em geral fica fã da história do Hachiko, um cão que todos os dias esperava pelo seu dono na porta da estação de Shibuya e que continuou a fazê-lo diariamente, mesmo depois que ele morreu. Uma estátua do cão foi erguida onde ele costumava ficar. Uma estátua em homenagem à lealdade do melhor amigo do homem. Não precisava muito mais do que isso para o bairro me conquistar, mas os maiores fãs de Shibuya frequentam o bairro mais pelas lojas descoladas e restaurantes moderninhos do que pela história bonitinha do cachorro fiel. Os mais abastados caminham carregados de sacolas. Os que não estão podendo se contentam em ver vitrines e gente bonita. Antes do meio-dia, nada de muito interessante acontece no bairro. Espere até de tarde para se perder por ali e aproveite para conhecer um Pachinko. São casas de jogos eletrônicos desde luta, tiro e futebol aos slots. Jogar é divertido – eu particularmente me viciei num jogo que imita um tambor e que você tem que bater ao ritmo da música – mas olhar é uma experiência antropológica. Seja um adolescente tocando guitarra elétrica com a precisão (e a pose) de um astro do rock ou um homem bem crescidinho apostando nas corridas de cavalo virtuais, equipado com pacotes de cigarro e latas de bebidas, sem a menor intenção de ir embora tão cedo. Com certeza você vai sair dali pensando quanto dinheiro um japonês médio é capaz de literalmente jogar fora em apenas uma tarde.

O cruzamento em frente à estação de Shibuya - um mar de gente atravessando a rua.

O cruzamento em frente à estação de Shibuya - um mar de gente atravessando a rua.

Para ver o desfile de japoneses pelo cruzamento tome um café no segundo andar do Starbucks.

Para ver o desfile de japoneses pelo cruzamento tome um café no segundo andar do Starbucks.

Harajuko – Se for passar um domingo em Tóquio, este é o seu destino. Porque em nenhum outro dia você vai ver garotas e garotos japoneses fantasiados na ponte que passa sobre os trilhos do trem. Eles investem nas roupas, na maquiagem e na atitude. O resultado são personagens de anime em carne e osso posando para turistas do mundo inteiro que tiram tantas fotos quanto os japoneses aqui do lado ocidental. Poucas cenas podem ser tão surreais. É aos domingos também que você vai pegar o seu primeiro engarrafamento a pé. Não é brincadeira. Na rua Takeshita, parece que todos os jovens japoneses marcaram de se encontrar por ali, para ver vitrines e comer os crepes recheados vendidos a cada esquina. (Passe por ali e me diga se foi capaz de resistir ao cheiro doce que toma conta do ar). Quando quiser escapar daquele formigueiro, é só fugir para a rua mais estilosa de Tóquio, a Omotesando. Além das lojas que não precisam de apresentação, como Channel e Issey Miyake, existem muitas outras para descobrir, como a Kiddyland, com vários andares de brinquedos e a Idea Frames, com lindas opções (em conta) de design. Para descansar os pés, nada como sentar num dos cafés da rua. A maioria tem enormes janelões, o que transforma a calçada numa passarela por onde passam japoneses moderninhos da cabeça (eles adoram chapéus e cortes de cabelo descolados) aos pés. Minha sugestão é o Apartment Café, para comer o delicioso bolo de chocolate quentinho com sorvete. Na transversal Meiji Dori, fica a melhor barganha da região. A UT Store vende t-shirts lindas por 15.000 yens cada (cerca de 10€). Só a loja em si vale a visita. Do outro lado da rua, tente descobrir um bar de jazz procurando um sinal em forma de vinil. É só subir uma escadinha de ferro para entrar no pequeno ambiente. Do outro lado do balcão, envolto em fumaça de cigarro, o dono se divide entre escolher o próximo disco de jazz que vai colocar para tocar e preparar os (apetitosos) sanduíches de pastrami, a única comida servida no lugar. Também em Harajuko fica o Museu Memorial de Arte Ota. Não consigo pensar em um museu mais japonês. Tira-se os sapatos para andar pelos chão de tatame enquanto se conhece um pouco mais do Ukiyo-e, arte japonesa feita com impressões em blocos de madeira que inspirou artistas impressionistas como Van Gogh. O museu normalmente fecha na última semana do mês para troca de exposições, vale a pena se informar antes.

Os jovens rebeldes...

O "carnaval" de jovens rebeldes...

...em Jingu Bashi.

...em Jingu Bashi.

...e os Domingos engarrafados de Harajuko.

E o engarrafamento de gente de Harajuko.

Ginza – Ginza é uma ode ao consumo. Um aglomerado de lojas que são muito mais do que lojas. São arquitetura pura, em edifícios inteiros que conseguem ser a síntese de uma marca, como no caso do preto-básico-que-nunca-sai-de-moda da Channel ou no elegantérrimo prédio todo em tijolos de vidro da Hermés. São galerias de arte como na loja da Leica (na rua Chuo-ku com a Miyuki Dori) sempre com exposições de fotografia. São as “depato”, apelido das lojas de departamento, com andares e andares onde se vende de quase tudo. Nestas últimas, penso com saudades nos subsolos dedicados à comida, que aqui não é só coisa que se come (e não faltam provinhas para beliscar). É coisa que se vê, se aprecia, se admira. Principalmente os doces, mais bonitos do que gostosos, o que pode ser uma vantagem já que ver não custa nada e ainda por cima não engorda. A uma estação de metrô de Ginza, fica o Parque Hibiya. Dali para o Palácio Imperial é um pulo. Complete o passeio com uma voltinha pelos jardins, única parte da residência oficial dos imperadores que pode ser visitada. Não deixe de voltar para ver as ruas de Ginza iluminadas à noite. E se precisar fazer uma horinha até anoitecer porque não visitar a cervejaria mais antiga de Tóquio: a Ginza Lion Beer Hall. Um pouco turístico, é verdade. Mas com uma cerveja bem gelada na mão, quem se importa?

Ginza iluminada à noite.

Ginza iluminada à noite.

Ebisu – Não conheci propriamente o bairro de Ebisu. O que conheci foi o Ebisu Garden Place, um centro com lojas, restaurantes e dois museus que valem a visita. O Museu da Cerveja, na verdade, merece uma visitinha rápida por três motivos: é de graça, tem um filme em 3D bem divertido (apesar de não dar para entender nada) e tem um bar para degustação com preços bem razoáveis no final. Já o Museu Metropolitano de Fotografia é o maior do país dedicado à fotografia e suas excelentes exposições de fotógrafos japoneses e internacionais merecem mais tempo e atenção. Atrás do museu, pode-se viver mais uma experiência fundamental no Japão: o shiatsu. Meia hora de dedos nipônicos pressionando com força seus pontos de tensão no Shiatsu Studio Wonderbeat renovam o seu ânimo para bater mais pernas pela cidade. Para chegar ao Ebisu Garden Place a partir da estação é só seguir as esteiras rolantes.

Asakusa – Neste bairro fica a rua mais charmosa de Tóquio, a Nakamise Dori, uma rua de pedestres ladeada por bancas vendendo artesanato e comidinhas típicas, como os bolinhos em forma de passarinho recheados com doce de feijão e os biscoitos de arroz. Chega a ser covardia. A rua começa no Portão de Kaminarimon, com sua lanterna gigante e as imponentes estátuas dos deuses do vento e do trovão e termina no Templo Senjo-ji, com a sequência de lanternas, as estátuas de Buda, o cheiro de incenso que se espalha pelo jardim cheio de construções vermelho vivo, como o Pagoda. De Asakusa também é possível fazer um passeio de barco até o centro da cidade. Vale não só pela vista da Tóquio a partir do rio, como pelo Jardim Hama Rikyu onde você desembarca. É um jardim como eu sempre imaginei que um jardim japonês seria.

Pagoda do Templo de Asakusa, o mais bonito de Tóquio.

Pagoda do Templo de Asakusa, o mais bonito de Tóquio.

Flor de cerejeira no Jardim Hama Rikyu.

Flor de cerejeira no Jardim Hama Rikyu.

Ueno – Ueno é o parque da cidade, onde as crianças aprendem a andar de bicicleta, os namorados alugam barquinhos para passear no lago e, infelizmente, os sem-teto adotam os bancos como residência. Ainda assim, é um gostoso passeio, principalmente se for fim-de-semana e estiver sol. As atracões mais conhecidas são a estátua do samurai Saigo Takamori, o Museu Nacional de Tóquio e o Ueno Zoo, que me deixou extremamente incomodada pelo (pequeno) tamanho das jaulas, inclusive a do fofo e disputado panda. Mas o bom mesmo foi andar por ali comprando comidinhas como Yakisoba nas bancas de rua e vendo as famílias japonesas na hora de lazer. Eu tive a sorte de assistir em Ueno o melhor espetáculo de rua da minha vida. (Teria sido excelente mesmo se eu tivesse pago um ingresso caro para vê-lo no teatro). Por isso, não hesite em sentar no chão e relaxar se por um acaso passar por um casal vestido de branco fazendo uma espécie de mímica em sintonia com uma música que sai de uma vitrola. Peço desculpas mas, assim como quase tudo que vivi nesse país, é impossível explicar melhor.

No Parque Ueno, os melhores e mais divertidos artistas de rua que eu já vi.

No Parque Ueno, os melhores e mais divertidos artistas de rua que eu já vi.

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Japão – Capítulo 2 – Os templos

Antes das seis da manhã estávamos acordados. Faz parte da experiência de dormir num templo: os hóspedes são convidados a participar da cerimônia religiosa diária. Faz frio, já que estamos no alto de uma montanha – Koyasan – um dos lugares mais sagrados do Japão, centro do Budismo Sheigon. Nos vestimos apressados e somos os primeiros a chegar. Um monge ainda termina de arrumar os últimos detalhes. Os outros hóspedes vão se juntando a nós. Éramos oito. Nós, os únicos ocidentais.

Ajoelhamos no chão sentados sobre os calcanhares, olhando para os cinco monges (um no centro, de manto roxo, e os outros em volta dele, de manto laranja). Nenhum deles de frente para nós. O cheiro de incenso, o cântico hipnotizante, o soar do tambor, a maneira como eles mantém uma postura ereta (muito diferente da nossa cabeça baixa e corpo curvado durante toda a missa), tudo traz uma energia boa e uma paz muito grande.

Depois das orações, o monge que conduziu a cerimônia – o de roxo – diz algumas coisas. Engraçadas, pela reação das pessoas que conseguem compreender. Em seguida, faz um sorteio. Tínhamos recebido umas senhas na noite anterior com alguns caracteres indecifráveis. Mostramos nossos papéis para um senhor ao nosso lado e descobrimos que o meu marido foi o sorteado. Ele ganha um quadrinho com alguma coisa escrita. A gente, é claro, não tem a menor idéia do quê. Mas todos parecem impressionados e fazem uma certa reverência para aquele que foi escolhido para receber o que nos pareceu um esperado sinal de boa sorte.

Tentamos contar para as pessoas que é o aniversário do meu marido, mas ninguém parece entender. Deixamos para lá, felizes com o presente, e seguimos o monge escada abaixo para andar sobre saquinhos de pano cheios de areia, cada um com uma palavra (ou seria frase?). Mais um ritual que eu não entendia, mas que fazia eu me sentir bem.

Ainda tentamos puxar conversa e descobrir exatamente o que estava escrito naquele quadrinho. Conseguimos apenas confirmar que era boa sorte. Determinados a saber o significado do presente, passamos no Centro de Informações. Já que eles falam inglês, insistimos numa tradução. O homem confabula com um colega e liga para o templo. Anota algumas coisas numa folha de papel e acessa a internet. Depois de uns 15 minutos, vamos embora com um “você, a natureza, o ambiente, tudo está não-escondido, revelado”. OK. Se é para trazer boa sorte, está ótimo pra gente.

Ficar hospedado no Henjosôn-in foi uma das melhores experiências da viagem. Mas a quantidade de templos (budistas) e santuários (xintoístas) que aparecem na frente de um turista no Japão é enorme. Tem uma hora que cansa. Meu marido cansou primeiro, é verdade. Desisti de ir a Nikko ou Kamakura (pretendia visitar uma das duas cidades perto de Tóquio até o fim da viagem). Mas alguns dos templos, na minha opinião, realmente valeram a visita. São eles:

– Senjo-in (Tóquio): Foi o primeiro que visitamos e, até por causa disso, ficou guardado no coração. O templo é muito bonito e a rua que se pega para chegar lá, a Nakamise-Dori, tem deliciosas lojinhas para comprar artesanato e provar biscoitos de arroz ou o típico doce em forma de passarinho, recheado de feijão.

Entrada do templo

O movimento ao redor do incensário.

Biscoitinhos

Uma das lojinhas da Nakamise-Dori.

As lanternas na entrada do templo...

As lanternas acesas à noite...

...fica ainda mais bonito.

...deixam o templo ainda mais bonito.

– Okuno-in (Koyasan): Na verdade é um cemitério que abriga o templo dedicado ao fundador de Koyasan e do Budismo Shingon, que está ali em “eterna meditação”. O passeio pelo cemitério dentro da floresta é mágico. Se você estiver andando entre tumbas de mármore e não de pedra (e sem os altos cipestres para dar uma aura especial para o caminho), você está na entrada nova, o que tira todo o encanto do passeio. Vale a pena voltar e passar pelas três pontes que levam a sala das lanternas, onde milhares delas estão acesas em honra aos mortos. Por uma pequena fortuna, você pode comprar uma lanterna e dedicar a alguém. Dizem que duas estão acesas desde a idade média. Ali atrás está o mausoléu. No lado esquerdo, antes do hall das lanternas, fica uma pequena cabine com uma pedra dentro. Supostamente, a pedra tem o peso dos seus pecados. Meu marido achou mais leve do que eu. Prefiro pensar que é porque ele é mais forte.

O passeio pelo cemitério...

Okuno-in é uma misutra de cemitério,...

...

...templo...

...

...e florestra mágica.

– Kyomizu-dera (Quioto) – Um dos candidatos derrotados às novas maravilhas do mundo, este templo também fica entre árvores, no alto de um morro, com vista para a cidade. A sua arquitetura é famosa por causa dos grandes pilares de madeira que seguram a varanda. Do Pagode, entre as árvores, tem-se uma bela vista da construção e impressiona saber que os pilares não têm nenhum prego. Na saída, paramos no restaurante que vende noodles e disputamos umas das mesinhas do lado de fora, com vista um lado para as copas das árvores, no outro para a fila de gente querendo beber a água pura que jorra da fonte (kyomizu-dera quer dizer templo da água pura). Atrás do templo principal, fica um templo menor, dedicado ao amor. É divertido ver hordas de adolescentes de mini-saia rezando com vontade para encontrar a cara-metade. Dizem que se você consegue andar de olhos fechados entre as duas pedras que estão ali, com certeza encontrará. Na saída, reparei nos preços dos talismãs. O que ajuda a ter uma segunda chance no amor custava o dobro dos outros. Mas tenho certeza que os corações despedaçados pagam sem pestanejar.

Alguns templos se espalham entre as árvores.

Alguns templos se espalham entre as árvores.

A varanda do templo principal, sobre os famosos pilares sem pregos.

A varanda do templo principal, sobre os pilares sem pregos.

Adolescentes e as plaquinhas de oração no Jishu-jinja, o templo do amor.

Adolescentes e as plaquinhas de oração no Jishu-jinja, o templo do amor.

– Sanjusangendo (Quioto) – Por fora, o edifício de madeira mais comprido do mundo não tem nada de especial em relação aos outros templos. Mas as 1001 estátuas douradas da deusa da misericórdia enfileiradas do lado de dentro me conquistaram. A estátua central, com mil braços, também impressiona. Ali, escrevi meu nome e um pedido num pedaço de madeira para ser queimado numa cerimônia. Diz-se que a Kanon perdoa os seus pecados e atende ao seu pedido. Agora é esperar para ver.

– Santuário Meiji (Tóquio) – Destruído na 2ª Guerra Mundial, foi reconstruído com madeira doada pelos cidadãos. Fica numa área arborizada, perto de um parque e da ponte onde os jovens fantasiados se reúnem aos domingos, no moderno bairro de Harajuko. Por isso mesmo é um choque. Principalmente porque tive a sorte de presenciar um casamento. Junto com muitos outros turistas, contemplei os noivos e convidados que se preparavam para a foto oficial. Ali, vendo o fotógrafo ajeitar o vestido da noiva, percebi como viajei no tempo em apenas dez minutos de caminhada.

A entrada para o templo.

O tradicional arco na entrada para o templo.

A cerimônia de casamento.

A cerimônia de casamento.

Estes foram os templos que eu mais gostei, dos poucos que vi. Poucos porque são muitos. Só em Quioto são mais de dois mil. Para os que vão ter a oportunidade de visitar alguns deles pela primeira vez fica a dica. Na entrada, lave as mãos e a boca para se purificar. Encha a panelinha de água, lave primeiro a mão esquerda e depois a direita. Coloque um pouco d’água na mão esquerda e limpe a boca e, se quiser, o rosto. Não beba direto da panelinha. Depois deixe o resto da água cair na direção do cabo e coloque-a de volta no lugar.

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Japão – Capítulo 1 – Os detalhes

Estou no meu primeiro dia no Japão, na minha primeira visita a um templo. Por 100 yens posso tirar a minha sorte. Jogo a moedinha, sacudo a caixa e tiro um palito de madeira. Procuro a gaveta correspondente aos ideogramas gravados nele. Lá dentro tem um pedaço de papel. Vamos a ele. Embaixo do texto em japonês, a tradução em inglês para a minha fortuna não é nada, nada boa. Meu marido resolve tirar outra para anular aquela. Repete todo o processo, abre outra gavetinha e a sorte dele não é melhor do que a minha.

E agora, o que a gente faz com aquilo? Guarda? Joga fora? Pedimos ajuda a uma menina que lê a minha sorte e diz “Nôoo. Bad fortune.” Até aí eu já sabia. Mas ela me mostra uns ferrinhos e manda eu amarrar o papel ali, onde estão tantos outros, e me explica que, assim, eu vou negar aquela sorte.

Adorei a idéia de poder negar a má sorte. Foi com alivio que dobrei o papel e o amarrei ali, dizendo “não, obrigada” para tudo o que é ruim. Achei justo. Comecei a admirar essa religião que te dá o direito de negar a sorte quando ela não é boa. E por via das dúvidas, voltei ao incensário e puxei mais um pouco de fumaça na minha direção.

O Japão é assim, cheio de rituais, de pequenos detalhes e grandes diferenças que são a melhor parte da viagem. Com horas de fuso horário na cabeça, você é obrigado a olhar por outro ângulo as coisas mais básicas como comer, tomar banho ou ir ao banheiro.

Sim, ir ao banheiro. O vaso sanitário japonês tradicional, que você encontra em grande parte dos banheiros públicos, fica no chão. Você vira de frente para a parede e agacha. Em se tratando de banheiros públicos, onde eu não iria sentar de qualquer maneira, acaba sendo mais higiênico. É mais fácil de se equilibrar do que nos nossos, onde temos que ficar paradas no meio do caminho, nem em pé, nem sentadas. Mas se os vasos sanitários tradicionais assustam, eu fiquei encantada com os modernos, que você encontra na maioria dos hotéis e lojas de departamentos. Você entra no banheiro e a tampa levanta sozinha. Você senta e o assento está quentinho. Você olha para o lado e vê um controle com mais botões do que as máquinas de lavar de última geração. E assim é o Japão, um lugar capaz de fazer você escrever um parágrafo (o maior até agora) só sobre as privadas.

E tem a história dos sapatos. Eu respeito um povo que tira os sapatos sempre que pode. E eles tiram mesmo, na maioria dos restaurantes, nos templos e até em alguns museus. Reparei que mesmo lugares como consultórios de dentistas estão cheios de sapatos na entrada, à espera de seus donos. Nos ryokans (hotéis tradicionais), quando se entra logo se vê um degrau, no qual o seu par de sapatos não pode nunca subir. Ali também fica um par de chinelos que podem ir até o seu quarto, mas não podem entrar nele. E este não é a único chinelo que vai aparecer no seu caminho. Dentro do banheiro, onde fica o vaso (lá vou eu falar disso de novo), tem um outro chinelo, que só deve ser usado ali dentro. Tudo para que os pezinhos que pisam no tatame do seu quarto não tenham pisado em nenhum lugar menos limpo. Como eu disse, todas as coisinhas daquele lado do mundo são uma enxurrada de informação.

Mas na minha opinião, a maior atração do Japão foram os japoneses.

E no melhor dos sentidos, porque nunca vi um povo tão gentil. Deve haver alguma competição interna para ver quem agradece mais. Eles não economizam “arigatôs gozaimas” nem com os turistas, nem entre si. Você também não fica parado tentando se encontrar no mapa sem que apareça alguém disposto a ajudar, mesmo com a (enorme) barreira da língua. Uma senhora correu dois quarteirões atrás de mim para devolver um caneta que eu deixei na mesa do café. Não era uma Mont Blanc, era uma Bic mesmo. Num restaurante, tentamos pedir os cogumelos que a mesa ao lado comia, mas já não havia mais. Os nosso gentis vizinhos tiveram a delicadeza de colocar um pouco no prato e nos oferecer para provar. Depois pegaram um outro pratinho e encheram de edamame (aquela vagem de soja) e também colocaram na nossa mesa. Quando a gente viu também estava falando “arigatôs gozaimas” a torto e à direita. Está certo que era uma das poucas coisas que éramos capazes de pronunciar. Mas a verdade é que os japoneses estão sempre te dando motivos para agradecer.

Não sei se pela postura das pessoas, pelas máscaras de gripe, pela limpeza das ruas, por nunca antes ter me sentido tão segura numa cidade grande. Fiquei com a sensação que ali as pessoas ainda dão valor a honra. E apesar de para nós, ocidentais, isso ter um quê de ingenuidade, fiquei com uma certa inveja. Ando tão desgostosa com a falta de noção do que é certo e errado no Brasil. E ali, tão longe de casa, tudo ficou mais claro. É isso que nos falta. Não só a consciência de que quando fazemos algo de errado prejudicamos o todo. Mas simplesmente saber que o errado é errado, e por isso mesmo, uma vergonha para nós mesmos.

Esse conceito de honra está na história. No suicídio dos samurais, o harakiri. Na época em que, quando se cometia um crime, o governo punia também a família e os vizinhos do culpado. Vá lá… Não acho que seja certo. Mas com certeza tudo isto deixou uma boa herança.

Agora não me engano achando que os japoneses sejam tradicionais em tudo. Muitas estudantes usam as saias plissadas tão curtas que qualquer brasileira saidinha ficaria chocada. Nunca vi um povo tão moderno para se vestir quanto em Tóquio. E tenho certeza que existe muita gente muito louca fazendo coisas mais loucas ainda por lá. (Apesar de achar aquela meninada fantasiada na ponte de Harajuko tentando parecer o Marylin Manson bem menos radical do que eles imaginam que sejam.)

Mas independente dessa filosofia de botequim toda, é muito divertido simplesmente ver os japoneses. Pode-se passar horas no Starbucks em frente à estação de Shibuya, com uma visão privilegiada do maior cruzamento (de pessoas) do mundo. Rir de como eles dormem assim que sentam no metrô e acordam exatamente na hora de sair da estação, como se nunca tivessem piscado. Brincar com o idioma que até a mente menos suja consegue fazer piadinhas bobas.

Voltei pra casa com a certeza que o melhor do Japão são os detalhes. E os detalhes mais encantadores estão nas pessoas de lá.

Obs.:  Esses dias conversei com duas pessoas diferentes planejando férias para o Japão , o que me fez lembrar da minha viagem para aquele lado do mundo, que aconteceu antes da existência desse blog. Mas nunca é tarde para contar uma viagem, certo?

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