Japão – Capítulo 1 – Os detalhes

Estou no meu primeiro dia no Japão, na minha primeira visita a um templo. Por 100 yens posso tirar a minha sorte. Jogo a moedinha, sacudo a caixa e tiro um palito de madeira. Procuro a gaveta correspondente aos ideogramas gravados nele. Lá dentro tem um pedaço de papel. Vamos a ele. Embaixo do texto em japonês, a tradução em inglês para a minha fortuna não é nada, nada boa. Meu marido resolve tirar outra para anular aquela. Repete todo o processo, abre outra gavetinha e a sorte dele não é melhor do que a minha.

E agora, o que a gente faz com aquilo? Guarda? Joga fora? Pedimos ajuda a uma menina que lê a minha sorte e diz “Nôoo. Bad fortune.” Até aí eu já sabia. Mas ela me mostra uns ferrinhos e manda eu amarrar o papel ali, onde estão tantos outros, e me explica que, assim, eu vou negar aquela sorte.

Adorei a idéia de poder negar a má sorte. Foi com alivio que dobrei o papel e o amarrei ali, dizendo “não, obrigada” para tudo o que é ruim. Achei justo. Comecei a admirar essa religião que te dá o direito de negar a sorte quando ela não é boa. E por via das dúvidas, voltei ao incensário e puxei mais um pouco de fumaça na minha direção.

O Japão é assim, cheio de rituais, de pequenos detalhes e grandes diferenças que são a melhor parte da viagem. Com horas de fuso horário na cabeça, você é obrigado a olhar por outro ângulo as coisas mais básicas como comer, tomar banho ou ir ao banheiro.

Sim, ir ao banheiro. O vaso sanitário japonês tradicional, que você encontra em grande parte dos banheiros públicos, fica no chão. Você vira de frente para a parede e agacha. Em se tratando de banheiros públicos, onde eu não iria sentar de qualquer maneira, acaba sendo mais higiênico. É mais fácil de se equilibrar do que nos nossos, onde temos que ficar paradas no meio do caminho, nem em pé, nem sentadas. Mas se os vasos sanitários tradicionais assustam, eu fiquei encantada com os modernos, que você encontra na maioria dos hotéis e lojas de departamentos. Você entra no banheiro e a tampa levanta sozinha. Você senta e o assento está quentinho. Você olha para o lado e vê um controle com mais botões do que as máquinas de lavar de última geração. E assim é o Japão, um lugar capaz de fazer você escrever um parágrafo (o maior até agora) só sobre as privadas.

E tem a história dos sapatos. Eu respeito um povo que tira os sapatos sempre que pode. E eles tiram mesmo, na maioria dos restaurantes, nos templos e até em alguns museus. Reparei que mesmo lugares como consultórios de dentistas estão cheios de sapatos na entrada, à espera de seus donos. Nos ryokans (hotéis tradicionais), quando se entra logo se vê um degrau, no qual o seu par de sapatos não pode nunca subir. Ali também fica um par de chinelos que podem ir até o seu quarto, mas não podem entrar nele. E este não é a único chinelo que vai aparecer no seu caminho. Dentro do banheiro, onde fica o vaso (lá vou eu falar disso de novo), tem um outro chinelo, que só deve ser usado ali dentro. Tudo para que os pezinhos que pisam no tatame do seu quarto não tenham pisado em nenhum lugar menos limpo. Como eu disse, todas as coisinhas daquele lado do mundo são uma enxurrada de informação.

Mas na minha opinião, a maior atração do Japão foram os japoneses.

E no melhor dos sentidos, porque nunca vi um povo tão gentil. Deve haver alguma competição interna para ver quem agradece mais. Eles não economizam “arigatôs gozaimas” nem com os turistas, nem entre si. Você também não fica parado tentando se encontrar no mapa sem que apareça alguém disposto a ajudar, mesmo com a (enorme) barreira da língua. Uma senhora correu dois quarteirões atrás de mim para devolver um caneta que eu deixei na mesa do café. Não era uma Mont Blanc, era uma Bic mesmo. Num restaurante, tentamos pedir os cogumelos que a mesa ao lado comia, mas já não havia mais. Os nosso gentis vizinhos tiveram a delicadeza de colocar um pouco no prato e nos oferecer para provar. Depois pegaram um outro pratinho e encheram de edamame (aquela vagem de soja) e também colocaram na nossa mesa. Quando a gente viu também estava falando “arigatôs gozaimas” a torto e à direita. Está certo que era uma das poucas coisas que éramos capazes de pronunciar. Mas a verdade é que os japoneses estão sempre te dando motivos para agradecer.

Não sei se pela postura das pessoas, pelas máscaras de gripe, pela limpeza das ruas, por nunca antes ter me sentido tão segura numa cidade grande. Fiquei com a sensação que ali as pessoas ainda dão valor a honra. E apesar de para nós, ocidentais, isso ter um quê de ingenuidade, fiquei com uma certa inveja. Ando tão desgostosa com a falta de noção do que é certo e errado no Brasil. E ali, tão longe de casa, tudo ficou mais claro. É isso que nos falta. Não só a consciência de que quando fazemos algo de errado prejudicamos o todo. Mas simplesmente saber que o errado é errado, e por isso mesmo, uma vergonha para nós mesmos.

Esse conceito de honra está na história. No suicídio dos samurais, o harakiri. Na época em que, quando se cometia um crime, o governo punia também a família e os vizinhos do culpado. Vá lá… Não acho que seja certo. Mas com certeza tudo isto deixou uma boa herança.

Agora não me engano achando que os japoneses sejam tradicionais em tudo. Muitas estudantes usam as saias plissadas tão curtas que qualquer brasileira saidinha ficaria chocada. Nunca vi um povo tão moderno para se vestir quanto em Tóquio. E tenho certeza que existe muita gente muito louca fazendo coisas mais loucas ainda por lá. (Apesar de achar aquela meninada fantasiada na ponte de Harajuko tentando parecer o Marylin Manson bem menos radical do que eles imaginam que sejam.)

Mas independente dessa filosofia de botequim toda, é muito divertido simplesmente ver os japoneses. Pode-se passar horas no Starbucks em frente à estação de Shibuya, com uma visão privilegiada do maior cruzamento (de pessoas) do mundo. Rir de como eles dormem assim que sentam no metrô e acordam exatamente na hora de sair da estação, como se nunca tivessem piscado. Brincar com o idioma que até a mente menos suja consegue fazer piadinhas bobas.

Voltei pra casa com a certeza que o melhor do Japão são os detalhes. E os detalhes mais encantadores estão nas pessoas de lá.

Obs.:  Esses dias conversei com duas pessoas diferentes planejando férias para o Japão , o que me fez lembrar da minha viagem para aquele lado do mundo, que aconteceu antes da existência desse blog. Mas nunca é tarde para contar uma viagem, certo?

1 Comentário

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One response to “Japão – Capítulo 1 – Os detalhes

  1. Letícia Assis

    Adorei o seu post sobre o Japão, eu estava realmente com algumas dúvidas. Eu amo a cultura e quem sabe um dia eu passo por lá, sempre achei que eles fossem gentis mesmos ! *-*

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